Márcio Corrêa rebate ataques de Wilder, inaugura comitê para Bolsonaro sem a presença do senador e ganha aceno do MDB para um eventual retorno à sigla
A troca de acusações entre o senador Wilder Morais (PL) e o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL), subiu mais um degrau e escancarou o distanciamento entre os dois políticos em meio à campanha para o governo de Goiás. Depois de ser chamado de “sabor direita” pelo candidato do PL ao Palácio das Esmeraldas, Corrêa respondeu com uma sequência de ataques e, no domingo (6), inaugurou em Anápolis um comitê voltado à campanha de Flávio Bolsonaro, sem a presença de Wilder e com material de candidatos que fazem oposição ao senador dentro da própria direita.
O novo capítulo da disputa começou em uma sabatina promovida pelo Mais Goiás, na qual Wilder classificou Corrêa como “sabor direita”, numa referência ao apoio declarado pelo prefeito a Daniel Vilela (MDB), principal adversário do senador na corrida pelo governo e sucessor de Ronaldo Caiado (PSD). Corrêa reagiu nas redes sociais. Em vídeo, devolveu a provocação com uma série de adjetivos dirigidos ao senador.
— O senhor tem sabor Moraes, sabor Messias, sabor rabo preso e sabor derrota — afirmou o prefeito.
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A referência a Alexandre de Moraes remete a um episódio de 2017, quando Wilder organizou em seu iate, no Lago Paranoá, uma reunião de senadores para receber Moraes, então indicado pelo presidente Michel Temer para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje, o ministro é um dos principais alvos de críticas do bolsonarismo.
Corrêa também citou a ausência de Wilder na votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, ao STF. O senador não participou da sessão. Nos bastidores, aliados de Corrêa afirmam que a ausência ocorreu depois de Wilder receber o contato de um empresário ligado ao PT para que se abstivesse da votação.
O prefeito ainda acusou Wilder de dedicar parte de sua campanha a atacá-lo, apesar de Corrêa não ser candidato na eleição deste ano.
— Nem candidato eu sou, mas o senhor está gastando dinheiro de fundo partidário para impulsionar ataques contra mim — afirmou.
COMITÊ PARA BOLSONARO
A disputa ganhou um componente simbólico no domingo, quando Corrêa inaugurou, em Anápolis, um comitê de campanha ao lado do deputado federal Gustavo Gayer (PL) e do vereador Major Vitor Hugo (PL).
O espaço distribui material de campanha dos dois políticos, candidatos ao Senado e à Câmara Federal, respectivamente, e do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). Durante a inauguração, os participantes fizeram questão de destacar que se trata do único comitê dedicado à campanha de Bolsonaro em Goiás.
Wilder não foi convidado para o evento e seu material não será distribuído no local.
A escolha do comitê reforça a disputa pelo espólio político do bolsonarismo em Goiás. Wilder tenta se consolidar como o candidato da direita ao governo, mas enfrenta dissidências dentro do próprio PL desde que Corrêa e o prefeito de Novo Gama, Carlinhos do Mangão, declararam apoio a Daniel Vilela.
No caso de Anápolis, o conflito é ainda mais sensível. Corrêa foi eleito prefeito em 2024 pelo PL, com apoio da legenda e do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas passou a defender a candidatura de Vilela, sucessor do governador Ronaldo Caiado (PSD). A posição levou a direção estadual do PL a abrir processo disciplinar contra o prefeito, com possibilidade de expulsão.
MDB SINALIZA REAPROXIMAÇÃO
Enquanto Wilder e Corrêa aprofundam a ruptura, o MDB passou a sinalizar que as portas estão abertas para o prefeito. Presidente estadual da legenda, Haroldo Naves afirmou ao site Folha Z que Corrêa “será muito bem-vindo” caso decida retornar ao partido. O dirigente acrescentou que o prefeito “tem história no MDB”.
Corrêa construiu sua trajetória política no MDB de Daniel Vilela e só deixou a sigla em abril de 2024, quando se filiou ao PL para disputar a prefeitura de Anápolis. A mudança ocorreu no contexto da aproximação de Corrêa com o bolsonarismo e foi parte da articulação que levou à sua vitória eleitoral na cidade, onde o eleitorado tem forte identificação com a direita.
O conflito ocorre num momento em que Wilder tenta recuperar espaço na disputa pelo governo. Na pesquisa mais recente da Quaest, divulgada no fim de agosto, Daniel Vilela apareceu com 37% das intenções de voto, seguido por Marconi Perillo (PSDB), com 20%, e Wilder, com 12%. Luis Cesar Bueno (PT) tinha 4%, enquanto 20% não souberam ou não quiseram responder.
O resultado deixou Wilder oito pontos atrás de Marconi e 25 pontos distante de Vilela. A estratégia do senador tem sido se apresentar como a alternativa da direita à disputa entre Vilela e Marconi. O conflito com Corrêa, no entanto, expõe justamente uma dificuldade para consolidar essa posição: parte dos políticos do próprio PL não está acompanhando sua candidatura.
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A tensão já havia provocado manifestações públicas de Gayer e Vitor Hugo em defesa de Corrêa. Os dois argumentaram que outros prefeitos do partido também apoiam Vilela e questionaram a decisão de tratar o prefeito de Anápolis de forma isolada.