Quando uma criança pede biscoito no supermercado ou rejeita legumes no prato, a cena costuma ser vista como responsabilidade exclusiva dos pais — especialmente das mães. No entanto, uma nova pesquisa do Instituto Pensi mostra que essa interpretação é simplista e não reflete a realidade por trás da alimentação infantil no Brasil.
O estudo “Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável”, com base em relatos de 142 pessoas em cinco grandes capitais do país, aponta que as escolhas alimentares das crianças são influenciadas por uma série de fatores externos ao ambiente doméstico.
Entre os elementos citados estão o preço dos alimentos, a rotina de trabalho dos responsáveis, o tempo disponível para preparo das refeições, o ambiente alimentar das cidades, o uso excessivo de telas e a forte influência da publicidade voltada ao público infantil.
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Segundo os pesquisadores, as famílias até sabem o que seria uma alimentação saudável, baseada em alimentos como arroz, feijão, frutas e legumes. O principal desafio, no entanto, não é a falta de informação, mas sim as condições práticas que dificultam essas escolhas no dia a dia.

O levantamento, realizado entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia, também indica que as crianças exercem forte influência nas compras. Muitas vezes, elas pedem produtos específicos vistos na internet, em embalagens chamativas ou associados a momentos de lazer.
Essa influência é reforçada por estudos internacionais. Uma meta-análise publicada no JAMA Pediatrics aponta que a publicidade de alimentos impacta diretamente o consumo e os pedidos de compra feitos por crianças e adolescentes.
Na prática, segundo o estudo, muitas famílias enfrentam uma comparação desigual: de um lado, alimentos naturais que exigem preparo, tempo e aceitação; do outro, ultraprocessados baratos, prontos para consumo e altamente atrativos.

Dados do ENANI-2019 mostram que o consumo desses produtos é alto desde a primeira infância: 80,5% das crianças de 6 a 23 meses já consomem ultraprocessados, índice que chega a 93% entre 24 e 59 meses.
O ambiente escolar também aparece como peça central na formação alimentar. Em escolas públicas, a merenda é vista por muitas famílias como referência de refeição equilibrada. Já em escolas privadas, o foco recai sobre lancheiras e cantinas.
O estudo destaca ainda desigualdades sociais importantes. Famílias de maior renda têm mais acesso a alimentos frescos e planejamento alimentar, enquanto famílias de baixa renda priorizam alimentos mais baratos e que garantam saciedade. A insegurança alimentar ainda atinge milhões de domicílios no país, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
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Fotos: Reprodução
Diante desse cenário, o estudo reforça que a alimentação infantil não pode ser vista como responsabilidade individual isolada. Especialistas defendem a necessidade de políticas públicas, como fortalecimento da alimentação escolar, regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados e maior acesso a alimentos saudáveis.
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A pesquisa conclui que o que chega ao prato das crianças é resultado de um conjunto de fatores sociais, econômicos e culturais — e não apenas de escolhas feitas dentro de casa.