Por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos
O Brasil vive um paradoxo: é uma das maiores potências mundiais em biodiversidade, possui uma longa tradição no uso de plantas medicinais e conta com uma comunidade científica capaz de produzir conhecimento de qualidade internacional. Apesar disso, essa combinação ainda se converte pouco em patentes, medicamentos inovadores e produtos de alto valor agregado.
A biodiversidade brasileira precisa ser vista não apenas como patrimônio ambiental, mas também como uma infraestrutura estratégica para ciência, tecnologia, saúde e desenvolvimento da bioeconomia.
Isso não significa transformar os ecossistemas em simples fontes de matéria-prima. O desafio é utilizar esses recursos de forma sustentável para gerar conhecimento, produtos de maior valor agregado e benefícios econômicos para a sociedade, com a participação das comunidades que detêm conhecimentos tradicionais.
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Um dos exemplos mais conhecidos dessa transformação é o captopril, medicamento utilizado no tratamento da hipertensão. O desenvolvimento do remédio teve origem nos estudos do professor Sérgio Henrique Ferreira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, a partir de pesquisas com o veneno da jararaca (Bothrops jararaca).
Também existem exemplos de fitoterápicos desenvolvidos no Brasil a partir de plantas medicinais, como o Acheflan, produzido com folhas de Cordia verbenacea; o Melagrião, baseado em Mikania glomerata; e o Sintocalmy, à base de Passiflora incarnata.
Esses casos mostram que é possível transformar o conhecimento sobre espécies medicinais em produtos comercialmente disponíveis, com estudos científicos de eficácia e segurança. Ainda assim, continuam sendo exceções diante da dimensão da biodiversidade brasileira e do volume de pesquisas produzidas no país.
A legislação também faz parte desse processo. A Lei nº 13.123/2015 estabeleceu regras para o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado, além de mecanismos de repartição de benefícios.
O principal desafio é conciliar a proteção da biodiversidade e dos direitos das comunidades com um ambiente favorável à pesquisa, à inovação e ao desenvolvimento de novos produtos.
O EXEMPLO DA CHINA
A experiência chinesa mostra como uma política de Estado pode conectar conhecimento tradicional, ciência, indústria e propriedade intelectual.
Em março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado da China publicou uma política voltada à melhoria da qualidade dos medicamentos tradicionais chineses e ao desenvolvimento da indústria.
A estratégia começa pela proteção dos recursos biológicos, com medidas para preservar espécies medicinais, criar bancos de dados, desenvolver tecnologias de cultivo e reprodução, melhorar sementes e mudas, controlar a qualidade e garantir a rastreabilidade das matérias-primas.
Na etapa industrial, o plano prevê modernização das fábricas e incorporação de tecnologias digitais e inteligentes, com o objetivo de fortalecer empresas ao longo de toda a cadeia produtiva.
A política também aproxima universidades, centros de pesquisa e empresas, além de estimular pesquisa básica e aplicada, estudos clínicos, desenvolvimento tecnológico, validação em escala-piloto e industrialização.
A propriedade intelectual ocupa espaço central, com uso combinado de patentes, marcas, indicações geográficas, proteção de variedades vegetais, segredos tecnológicos e mecanismos de proteção do conhecimento tradicional.
Também estão previstos instrumentos de financiamento, crédito e seguros para apoiar desde o cultivo das matérias-primas até o desenvolvimento de medicamentos.
Em outras palavras, a estratégia chinesa procura construir uma cadeia que começa na proteção dos recursos biológicos e termina em produtos regulados, protegidos por propriedade intelectual e capazes de competir no mercado internacional.
OS GARGALOS BRASILEIROS
O Brasil possui políticas públicas relacionadas a plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006. Também conta com universidades, institutos de pesquisa, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada.
O desafio está em integrar todos esses elementos em uma estratégia de longo prazo.
Uma política semelhante poderia estimular projetos desde o desenvolvimento de extratos padronizados e a identificação de moléculas ativas até os estudos pré-clínicos e clínicos, o registro na Anvisa e a produção em escala.
O financiamento também precisa acompanhar todas essas etapas. Não basta apoiar a descoberta de uma substância se não houver recursos para estudos pré-clínicos, testes clínicos, escalonamento, transferência de tecnologia e chegada do produto ao mercado.
Também são necessários investimentos na formação de pesquisadores, parcerias entre universidades e empresas e medidas capazes de reduzir obstáculos regulatórios e tecnológicos.
MUITAS PESQUISAS, POUCAS PATENTES
O contraste brasileiro aparece quando se compara a riqueza biológica do país com sua capacidade de transformá-la em inovação.
Um artigo de revisão citado pelos autores aponta que pesquisadores brasileiros publicaram cerca de 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos dez anos.
Apesar da produção expressiva, a transformação desse conhecimento em medicamentos e tecnologias continua limitada.
Outro estudo identificou 25 pedidos de patente relacionados a medicamentos derivados de plantas medicinais brasileiras entre 2003 e 2008. A maioria das invenções havia sido desenvolvida em universidades e centros de pesquisa do país, mas não chegou a se transformar em produtos, em grande parte pela falta de parcerias com a indústria.
O problema, portanto, não está apenas na produção de conhecimento, mas na dificuldade de transformá-lo em propriedade intelectual, tecnologias e produtos regulamentados.
UMA POTÊNCIA EM BIODIVERSIDADE
O Brasil reúne seis grandes biomas terrestres e uma enorme diversidade de ecossistemas costeiros e marinhos. Estimativas indicam que cerca de 20% das espécies conhecidas no mundo estão presentes no território brasileiro.
O país também possui aproximadamente 45 mil a 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos, além de uma grande diversidade de conhecimentos tradicionais desenvolvidos por povos indígenas, comunidades tradicionais e populações rurais.
Essa combinação entre biodiversidade, conhecimento tradicional e capacidade científica representa uma vantagem estratégica para o país.
Produtos naturais já demonstraram sua importância no desenvolvimento de medicamentos. Estimativas apontam que cerca de 35% a 40% dos medicamentos possuem alguma relação com produtos naturais.
O Brasil, portanto, reúne elementos fundamentais para ocupar uma posição de destaque nessa área. O desafio é transformar esse potencial em uma política de Estado capaz de conectar biodiversidade, ciência, tecnologia, propriedade intelectual, indústria e financiamento.
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Nesse cenário, uma parceria estratégica com a China pode contribuir para ampliar a capacidade brasileira de transformar conhecimento sobre a biodiversidade em inovação e produtos de maior valor agregado, fortalecendo a bioeconomia e gerando benefícios para a sociedade.