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De One Piece às ruas: cultura pop vira símbolo de resistência nos protestos da geração Z
Foto: Divulgação

Bandeiras de animes, referências musicais e personagens de filmes ajudam jovens de diferentes países a expressar insatisfação política, criar identificação coletiva e mobilizar manifestações.

Uma bandeira pirata inspirada no anime japonês One Piece tem aparecido em manifestações lideradas por jovens em diferentes partes do mundo. O símbolo, associado à tripulação do personagem Monkey D. Luffy, ultrapassou as telas e passou a representar resistência a governos e sistemas considerados opressores por parte da geração Z.

 

Na história, Luffy e seus companheiros desafiam estruturas de poder marcadas por desigualdades e abusos. Essa narrativa encontrou identificação entre jovens que protestam contra decisões políticas, condições econômicas e problemas sociais em seus países.

 

No ano passado, a bandeira foi vista em manifestações no Nepal, no Marrocos e na Indonésia. Mais recentemente, apareceu em atos na França, na Espanha, na Albânia, nos Estados Unidos, no Chile, no México e no Brasil.

 

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O estandarte de One Piece divide espaço com outras referências culturais, como a saga Jogos Vorazes, músicas de artistas pop e imagens de ídolos do k-pop. Para muitos manifestantes, esses elementos representam mais do que preferências de entretenimento: são formas de expressar ideias e estabelecer conexões com pessoas que compartilham experiências semelhantes.

 

CULTURA POP TRANSFORMA FICÇÃO EM EXPRESSÃO POLÍTICA

 

A presença dessas referências nas ruas mostra uma mudança na maneira como parte dos jovens se manifesta politicamente. Em vez de recorrer apenas a bandeiras nacionais, símbolos partidários e palavras de ordem tradicionais, os participantes também utilizam personagens, músicas, memes e conteúdos populares nas redes sociais.

 

Na França, por exemplo, estudantes que foram às ruas para reivindicar melhores condições de ensino acompanharam uma apresentação de uma orquestra jovem que tocou The Hanging Tree, música da franquia Jogos Vorazes. Na narrativa, a canção está associada à resistência e à mobilização coletiva. A apresentação foi interrompida pelo uso de gás lacrimogêneo, mas imagens do episódio circularam nas redes.

 

 

 

Para o semioticista Paolo Demuru, autor do livro Políticas do Encanto: Extrema Direita e Fantasias da Conspiração, os símbolos têm força porque conseguem reunir diferentes reivindicações em torno de valores compartilhados.

 

Segundo ele, nenhum elemento nasce necessariamente com um significado político. É a maneira como as pessoas o utilizam e as histórias que constroem ao seu redor que transformam um objeto ou uma imagem em símbolo.

 

Nesse processo, os significados podem mudar conforme a referência circula entre países, grupos sociais e contextos políticos distintos.

 

REDES SOCIAIS AMPLIAM O ALCANCE DAS MANIFESTAÇÕES

 

A popularidade internacional de animes e mangás ajudou a formar comunidades de fãs que compartilham personagens, histórias e referências culturais, mesmo vivendo em países distantes. Com as redes sociais, esses vínculos ganharam novas possibilidades de organização e mobilização.

 

Adriana Amaral, pesquisadora e coordenadora do laboratório Cultpop da Universidade Federal Fluminense, destaca que as plataformas digitais contribuem para transformar interesses individuais em experiências coletivas.

 

V de Vingança

Foto: Divulgação

 

Para a pesquisadora, ser fã envolve tanto uma relação pessoal com determinada obra ou artista quanto o sentimento de pertencimento a uma comunidade. Esses grupos podem oferecer espaços de identificação, especialmente para jovens e minorias sociais, além de repertórios que passam a ser utilizados em causas públicas.

 

A apropriação de referências culturais por movimentos políticos não é novidade. A máscara de Guy Fawkes, popularizada pelo filme V de Vingança, tornou-se conhecida em manifestações e foi utilizada por grupos como o Anonymous e por participantes do Occupy Wall Street, movimento contrário à influência do poder econômico na política.

 

Outro exemplo são os macacões vermelhos e as máscaras inspiradas no pintor Salvador Dalí, associados à série La Casa de Papel, que também foram incorporados a protestos em diferentes países.

 

A novidade está na frequência com que referências semelhantes aparecem em mobilizações juvenis de diferentes regiões, muitas vezes impulsionadas pela circulação de imagens e vídeos nas plataformas digitais.

 

FANDOMS LEVAM HABILIDADES DE ORGANIZAÇÃO PARA A POLÍTICA

 

A experiência acumulada pelas comunidades de fãs também ajuda a explicar a capacidade de mobilização observada nos protestos. Grupos ligados à música pop e ao k-pop, por exemplo, desenvolveram estratégias para organizar campanhas, coordenar ações virtuais e ampliar o alcance de publicações.

 

Essas habilidades podem ser transferidas para iniciativas políticas e sociais.

 

No Brasil, comunidades de fãs de artistas como BTS e Taylor Swift já se mobilizaram em torno de questões como os direitos dos consumidores, o acesso à água em grandes eventos e os preços dos ingressos. Parte desses grupos também passou a participar de debates e campanhas políticas.

 

Durante a mobilização eleitoral recente, comunidades de fãs tiveram participação em iniciativas de apoio a candidatos e em manifestações nas ruas. Em um discurso na avenida Paulista, em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agradeceu à atuação desses grupos e mencionou diretamente os fandoms brasileiros.

 

A cultura pop também pode facilitar a aproximação dos jovens com assuntos políticos complexos. O humor, os memes e as referências conhecidas tornam as mensagens mais acessíveis e ajudam a romper com a percepção de que a política precisa ser apresentada de maneira rígida ou formal.

 

Para Adriana Amaral, a internet contribui para transformar esse formato, enquanto a cultura pop oferece elementos capazes de permanecer no imaginário coletivo.

 

IDENTIFICAÇÃO CULTURAL NÃO SIGNIFICA CONSENSO POLÍTICO

 

A presença de símbolos compartilhados não significa que todos os participantes dos protestos defendam as mesmas ideias. As manifestações de cada país respondem a realidades políticas, econômicas e sociais específicas, e uma mesma referência pode assumir diferentes interpretações.

 

Além disso, gostar de uma obra ou participar de uma comunidade de fãs não implica necessariamente concordar com as posições políticas de outros integrantes.

 

Ainda assim, o reconhecimento de personagens, músicas e histórias pode funcionar como ponto de partida para a aproximação entre pessoas que não se conheciam, mas compartilham insatisfações ou objetivos.

 

Demuru avalia que esses elementos ajudam a criar uma sensação de pertencimento que ultrapassa o ambiente digital. O encontro entre manifestantes transforma uma identificação virtual em uma experiência coletiva, marcada pela presença física, pelo entusiasmo e pela possibilidade de agir em conjunto.

 

O fenômeno também questiona a imagem da geração Z como apática ou desinteressada pela política. Embora não represente todos os jovens, a participação em manifestações mostra como referências digitais podem contribuir para a ocupação dos espaços públicos.

 

Para Demuru, a cultura pop tornou-se um mecanismo de construção de consciência sobre o pertencimento político e social. O desafio, porém, é fazer com que a identificação inicial se transforme em participação contínua e interesse pelas questões que motivam os protestos.

 

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Assim, uma bandeira criada para representar personagens de ficção pode adquirir um significado mais amplo: tornar-se um sinal de resistência, uma linguagem compartilhada entre gerações e países e uma forma de expressar o desejo de mudança. 

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