Pesquisadores brasileiros e estrangeiros afirmam que intervenções na BR-319 e projetos de mineração podem favorecer o surgimento de doenças com potencial impacto global.
Um grupo formado por 19 pesquisadores brasileiros e estrangeiros divulgou um alerta sobre os possíveis impactos sanitários de grandes obras de infraestrutura na Amazônia. Segundo o estudo, projetos como a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes, no Amazonas, podem aumentar o risco de surgimento de novas doenças com potencial para provocar futuras pandemias.
A pesquisa foi conduzida por especialistas de instituições como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade de São Paulo (USP) e contou com a participação do pesquisador Philip Fearnside, vencedor do Prêmio Nobel da Paz como integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
As conclusões foram publicadas na revista científica Science, em um artigo intitulado Amazon infrastructure poses biosecurity risks ("A infraestrutura na Amazônia apresenta riscos à biossegurança", em tradução livre). Paralelamente, os cientistas encaminharam uma carta ao Vaticano solicitando atenção internacional para os riscos ambientais, sanitários e sociais associados aos empreendimentos previstos para a região.
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Segundo os pesquisadores, a abertura de novas áreas da floresta pode aumentar o contato entre seres humanos, animais silvestres e microrganismos ainda pouco conhecidos pela ciência, favorecendo o surgimento de zoonoses doenças transmitidas entre animais e pessoas.
O documento também destaca que a pavimentação da BR-319 e os projetos de mineração podem impactar dezenas de comunidades indígenas e populações tradicionais, além de estimular o avanço do desmatamento, da grilagem de terras e de atividades ilegais na Amazônia.
De acordo com o pesquisador Tomas Hrbek, do Departamento de Genética da Ufam, a degradação ambiental amplia a exposição da população a vírus e bactérias presentes na floresta, aumentando o risco de que esses agentes infecciosos alcancem centros urbanos.
Segundo ele, a elevada mobilidade da população atualmente facilita a rápida disseminação de doenças, como ocorreu durante a pandemia de Covid-19. O pesquisador também cita exemplos recentes, como surtos de Ebola na África e a circulação de novas variantes do vírus Oropouche na região amazônica.
Os cientistas afirmam ainda que análises genéticas identificaram comunidades microbianas pouco conhecidas na região central da BR-319 e em áreas destinadas à mineração de potássio. De acordo com o estudo, esses microrganismos apresentam características associadas à resistência a antibióticos, alta virulência e potencial de disseminação genética.
Além das preocupações com doenças infecciosas, o grupo chama atenção para outro fator ambiental: o aumento da poluição por nitrogênio provocado por atividades humanas, como fertilização agrícola, queima de combustíveis fósseis e manejo inadequado de resíduos. Na avaliação dos pesquisadores, a governança ambiental internacional deveria ampliar o debate sobre a chamada "neutralidade de nitrogênio", da mesma forma que já ocorre com as emissões de carbono.
O coordenador da pesquisa, Lucas Ferrante, da USP e do Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), defende que projetos de infraestrutura e mineração sejam precedidos de consultas às populações indígenas e de estudos mais aprofundados sobre os impactos ambientais e sanitários.
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Segundo ele, preservar a floresta amazônica e proteger os povos tradicionais também representa uma estratégia importante para reduzir o risco de futuras crises epidemiológicas e fortalecer a prevenção de novas pandemias.