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O Partido Digital Bolsonarista
Foto: Reprodução

* Por Diágoras Spinoza - O Brasil é uma fábrica de jabuticabas institucionais. Agora descobrimos, graças aos cientistas políticos, que existe um partido que não tem sede, não tem diretório, não realiza convenção, não presta contas, não distribui santinho, não elege diretório municipal e, mesmo assim, juram que ele funciona mais do que muito partido registrado no Tribunal Superior Eleitoral.

 

É o tal Partido Digital Bolsonarista. Afinal, para que estatuto, se existe algoritmo? Para que convenção, se há live? Para que ata de reunião, quando um post resolve tudo?

 

O presidente do partido nem precisa convocar reunião. Basta publicar um vídeo. Os filiados comparecem espontaneamente na caixa de comentários.

 

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Os antigos partidos discutiam programas de governo. O novo discute engajamento. Os antigos tinham correntes internas. O digital tem hashtags. Os antigos mediam força em votos. O moderno mede em curtidas, compartilhamentos e cancelamentos. É a democracia por Wi-Fi.

 

O mais curioso é que, segundo os estudiosos, ninguém permanece líder por muito tempo. No Partido Digital Bolsonarista, a regra parece ser a da natureza: quem viraliza mais sobe na cadeia alimentar.

 

É uma espécie de seleção natural do Instagram. Hoje você é príncipe. Amanhã vira meme. Depois de amanhã já tem um influenciador conservador dizendo que você traiu a causa porque demorou quatro minutos para comentar um assunto qualquer. É a política transformada em reality show.

 

A eliminação acontece diariamente. Sem paredão. Sem direito a voto. Apenas pelo tribunal supremo das redes sociais.

 

A ironia é que o partido mais "antissistema" vive muito bem dentro do sistema. Usa partido registrado. Usa fundo partidário. Usa fundo eleitoral. Usa tempo de televisão. Usa estrutura institucional. Mas diz que odeia tudo isso.

 

O Partido Digital Bolsonarista é quase um vegetariano dono de churrascaria. E talvez a grande novidade não seja exatamente esse Partido maluco. A novidade é perceber que toda a política brasileira resolveu copiar a internet.

 

A esquerda faz trend. A direita faz trend. O centro tenta descobrir o que significa trend. Deputado grava dança. Senador faz reels. Prefeito inaugura buraco no TikTok. Governador anuncia ponte no Instagram. Até CPI virou podcast.

 

Já não importa tanto quem governa. Importa quem entrega melhor corte para o WhatsApp. Os velhos caciques políticos foram substituídos por especialistas em engajamento. Os marqueteiros perderam espaço para administradores de comunidade. Os articuladores deram lugar aos designers de thumbnail.

 

Vejam bem, a política virou uma disputa entre algoritmos. Não se vence mais uma eleição apenas convencendo o eleitor. É preciso convencer o algoritmo.

 

No futuro, nem precisaremos de partidos. Bastará atualizar o aplicativo.

 

E por aí vai a gente assistindo à folclorização da política brasileira. Uns governam para produzir resultados. Outros produzem resultados para virar postagem. E há aqueles que acreditam sinceramente que um país de 220 milhões de habitantes pode ser administrado como se fosse um grupo de Telegram.

 

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O problema é que o algoritmo nunca foi eleito. Mas anda decidindo muita coisa. E tome Chagpt pra cá, Claude pra lá, Gemini pra acolá e DeepSeek pra mais além. Um pandemônio de merda que nem a Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo de 2026. 

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