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Manaus
O velório antecipado do Bar do Armando
Foto: Reprodução

 

*Por Diágoras Spinoza - Sim, meus amigos. Hoje amanheci de luto e puto de raiva. Não porque a porcaria da Seleção Brasileira perdeu mais uma Copa do Mundo ou porque morreu alguém muito querido. Pior: tô puto porque anunciaram a morte de um ponto de encontro maravilhoso.

 

“Já fechou?”, perguntei a um amigo na tarde de sábado passado, na Praça São Sebastião. “Ainda não”, respondeu o amigo. “Então, vai fechar?”. “Vai fechar, ao que tudo indica”, disse ele.

 

Foi assim que tive de encarar a realidade do despejo do Bar do Armando. E, convenhamos, há lugares que morrem muito antes de fecharem as portas.

 

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Não vou discutir a decisão da Justiça. Muito menos a posição de dom Adolfo Zon Pereira. O bispo está no direito dele. O imóvel é da Diocese, a Justiça decidiu, o processo durou nove anos e ponto final. Contra sentença transitada em julgado, nem o garçom mais antigo serve chope.

 

O problema é outro. O Bar do Armando não acabou agora. Acabou quando desligaram a conversa e ligaram uma caixa de som ridícula, igual a um trio elétrico.


Durante décadas o Bar do Armando foi uma espécie de Senado paralelo de Manaus. Ali se resolvia eleição, se derrubava prefeito, se festejava poeta, se absolvia jornalista e se condenava crítico de futebol. Era o único lugar onde um desembargador, um boêmio, um pintor, um professor universitário e um pescador podiam discordar de tudo e terminar a noite dividindo a mesma conta, ou fugindo dela em meio a porres simplesmente indescritíveis. Lá foi fundada a Banda da Bica, uma excelência nos festejos de Momo.

 

Depois veio a modernidade. Modernidade, no caso, quer dizer um sujeito convencido de que música boa é aquela que impede qualquer ser humano de ouvir o próprio pensamento.

 

Os herdeiros do velho Armando conseguiram um feito histórico. Transformaram um patrimônio cultural em patrimônio auditivo do Ministério Público.

 

Eu entrei lá outro dia com uma colega jornalista para tomarmos uma cerveja e ficamos irritados com o som alto. Conversar? Impossível. Era mais fácil negociar um acordo de paz entre torcidas organizadas do que trocar duas frases sem berrar.

 

O curioso é que o bar foi tombado como Patrimônio Cultural Imaterial. Imaterial. Mas trataram o patrimônio como se fosse um parque de diversões sonoro. Em vez de preservar a alma do lugar, preferiram alugá-la ao demônio.

 

Os intelectuais desapareceram. Os artistas fugiram. Os jornalistas migraram para cafeterias. Os políticos também sumiram, apesar de que políticos sobrevivem em qualquer ambiente, até em inauguração de quebra-molas.

 

Na ocasião, fiz uma observação filosófica à minha colega jornalista:” O barulho eletrônico tem uma vantagem sobre o pensamento: não exige raciocínio”, sentenciei, arrematando: “O sujeito passa cinco horas ouvindo "tum-tum-tum" e sai convencido de que se divertiu. Na verdade, só perdeu a audição”.

 

O mais irônico de toda essa história é que agora há uma comoção geral. Todo mundo quer salvar o Bar do Armando. Salvar de quê? Do despejo? Talvez.

 

Mas quem iria salvá-lo do assassinato cultural cometido aos poucos, noite após noite, decibel após decibel? Porque o velho Armando não ficou famoso por vender cerveja. Manaus inteira vende cerveja. Ele ficou famoso porque vendia convivência. E hoje isso anda mais raro que político recusando cargo.

 

O Bar do Armando não está sendo despejado do Largo São Sebastião. Está sendo despejado da memória afetiva de uma geração. E isso começou muito antes do oficial de Justiça aparecer.

 

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Decidi ir lá na próxima semana fazer um brinde melancólico, faiscando de ódio, chorando a morte de mais um patrimônio cultural pessimamente preservado em Manaus. 

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