Perícia não encontrou pembrolizumabe no frasco, e uma dose chegou a ser aplicada em paciente do Hospital IGESP. Imunoterapia custa mais de R$ 20 mil e é o remédio mais judicializado do país
Uma investigação sobre a venda de medicamentos falsificados para tratamento de câncer revelou um caso considerado extremamente grave pelas autoridades e especialistas da área da saúde. Um frasco de Keytruda, imunoterápico utilizado contra diferentes tipos de tumores e também indicado ao papa Leão XIV, chegou ao Hospital IGESP, em São Paulo, com embalagem aparentemente semelhante à original, mas sem o principal componente responsável pelo tratamento. Segundo uma análise laboratorial, o produto continha apenas sódio e cloro.
O caso ganhou ainda mais gravidade porque uma dose do medicamento falsificado chegou a ser aplicada em um paciente da unidade hospitalar. A perícia realizada pelo laboratório forense da fabricante MSD não identificou a presença de pembrolizumabe, princípio ativo do Keytruda, nem de qualquer outra substância farmacêutica na solução. O laudo integra as investigações da Operação Laziosi, que teve uma nova fase deflagrada nesta quinta-feira (5), com a prisão de três pessoas suspeitas de participação no esquema.
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COMO A FALSIFICAÇÃO FOI DESCOBERTA
A suspeita começou em julho de 2024, quando a fabricante recolheu dois frascos de Keytruda de 100 mg no Hospital IGESP para verificar a autenticidade dos produtos. Embora as embalagens apresentassem características semelhantes às do medicamento original, os investigadores encontraram inconsistências nos dados de identificação. Uma das caixas trazia um número de lote verdadeiro, mas com um erro na data de validade, enquanto o rótulo do frasco apresentava outro lote, que não existia.
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Comparação na análise do medicamento falso e original.
(Foto: Reprodução)
A perícia concluiu que não apenas o conteúdo era falso: a caixa, o rótulo, a bula, os lacres, o selo metálico, a tampa e o próprio frasco também apresentavam sinais de falsificação. O líquido passou por três análises químicas, todas sem encontrar qualquer vestígio do princípio ativo. Os resultados apontaram somente a presença significativa de sódio e cloro, indicando que os pacientes poderiam estar recebendo uma solução sem efeito terapêutico no lugar de um medicamento essencial para combater a doença.
MEDICAMENTO É UTILIZADO CONTRA PELO MENOS 19 TIPOS DE CÂNCER
O Keytruda é aprovado para o tratamento de pelo menos 19 tipos de tumores, incluindo cânceres de pulmão, pele, rim, cabeça e pescoço, estômago e esôfago. Diferentemente da quimioterapia tradicional, o pembrolizumabe atua sobre o sistema imunológico, bloqueando um mecanismo utilizado por determinadas células cancerígenas para escapar das defesas do organismo. Com isso, o tratamento permite que o próprio corpo reconheça e ataque o tumor.
O medicamento também está relacionado ao tratamento indicado ao papa Leão XIV, que passou por uma cirurgia para retirada de um adenocarcinoma de pulmão de 2,5 centímetros em outubro. Segundo as informações divulgadas, os exames não identificaram células cancerígenas em outras regiões do corpo, e a imunoterapia deverá ser utilizada para reduzir o risco de retorno da doença. Especialistas explicam que a presença de determinados marcadores nas células tumorais ajuda os médicos a avaliar se o paciente pode se beneficiar desse tipo de tratamento.
ALTO CUSTO E DIFICULDADE DE ACESSO AUMENTAM A PREOCUPAÇÃO
No Brasil, um frasco de Keytruda pode custar mais de R$ 20 mil, e o medicamento está entre os mais caros e judicializados do país. Uma análise realizada até abril deste ano identificou aproximadamente 6,7 mil ações judiciais relacionadas ao acesso ao tratamento nas Justiças estadual e federal. No Sistema Único de Saúde (SUS), a medicação é disponibilizada apenas para casos de melanoma avançado, enquanto a utilização para outras modalidades de câncer ainda enfrenta discussões sobre custo e incorporação à rede pública.
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A gravidade da falsificação também está no risco de os pacientes não perceberem imediatamente que receberam um produto sem o princípio ativo. Segundo o oncologista Stephen Stefani, a imunoterapia costuma apresentar poucos efeitos colaterais e não provoca necessariamente uma resposta perceptível logo após a aplicação, o que pode facilitar a atuação de criminosos. Além da ausência de efeito contra o câncer, produtos manipulados de forma irregular podem apresentar contaminação e provocar complicações em pessoas que já estão com a saúde debilitada. Em março, o governo anunciou uma parceria para transferir ao Instituto Butantan a tecnologia de produção do pembrolizumabe, com a expectativa de reduzir os custos e ampliar o acesso ao tratamento no SUS.